quinta-feira, 14 de junho de 2007

HÉLIO É TUDO

por MARCOS AUGUSTO GONÇALVES
(Folha de S.Paulo - Ilustrada - 14-06-2007)

Um belo artigo publicado pelo "The Guardian" exalta a arte de Hélio Oiticica, exposta na Tate Modern.

AS CORES cantam em sua obra e, com elas, também canta o coração. Uma de suas invenções poderia parecer a alguém um pássaro de origami que alçou vôo de uma tela suprematista dos anos 20 para pousar numa árvore de Klee. Suas realizações e a de outros artistas de seu tempo e de seu país levaram o modernismo a um lugar que os predecessores europeus e os contemporâneos norte-americanos jamais imaginaram.Essas são algumas opiniões de um artigo publicado pelo "The Guardian", sobre a exposição de Hélio Oiticica inaugurada no dia 6 na Tate Modern, o templo britânico da arte moderna e contemporânea. O texto chegou-me em gentil e-mail de Hermano Vianna (subject: texto lindo). O autor é o crítico e curador Adrian Searle, que também destaca um aspecto pouco mencionado sobre o artista -suas virtudes como pintor.Dois amigos meus gostam de se divertir identificando "gênios" no mundo cultural - que, no final das contas, servem para confirmar a evidência de que eles próprios, embora talentosos, não mereceram de Deus a bênção de fazer parte dessa categoria. Eles são judeus, claro.Ambos concordariam que Hélio Oiticica é um gênio, embora para os desavisados este fato possa ter permanecido oculto durante muito tempo, quando era óbvio.Convenientemente, parafraseio Caetano Veloso, não para lembrar o que todos sabem -que o título "Tropicália", da famosa canção, veio de uma obra de Oiticica. Na realidade, mais do que um título, ele formulara um conceito, dentro de seu projeto de recusar a cópia de "stars and stripes" do pop norte-americano e criar uma imagética e uma linguagem brasileira na arte de vanguarda. Sua vida desregrada conciliava-se com uma espantosa disciplina na especifição e catalogação de suas obras e projetos - e também com uma assídua atividade conceitual e crítica."Tropicália", exibida em 1967, era, como se sabe, um ambiente, ou, no conceito de HO, um "Penetrável" -uma obra na qual o espectador ou o participador "entra". Nela, o artista, que já inventara os "Parangolés", usa terra, plantas, pedriscos e uma construção que nos remete à "arquitetura orgânica" das favelas. No final, chega-se a um labirinto que termina numa TV ligada.Em 1968, ele escreveu: "Propositadamente eu quis, desde a designação criada por mim de "Tropicália" (devo informar que a designação foi criada por mim, muito antes de outras que sobrevieram, até se tornar a moda atual) até seus mínimos elementos, acentuar essa nova linguagem com elementos brasileiros, numa tentativa ambiciosíssima de criar uma linguagem nossa, que fizesse frente à imagética pop e op".Mário Pedrosa escreveu que Oiticica foi o primeiro "pós-moderno". A expressão, que não tinha o mesmo sentido que tem hoje, apontava para os extremos a que o artista levou o modernismo e o construtivismo. Hélio morreu aos 42 anos, em 1980. Uma parte considerável de sua criação -reunida em uma das salas da Tate- foi concluída quando ele tinha apenas 18 anos. E dar-se conta disso, como diz Searle em seu artigo, não deixa de ser um baque.

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